sexta-feira, 24 de junho de 2011

Espaço Entre A Dor E O Consolo

Dela, que mora abaixo do penhasco,
Depois de encerrado início,
Tento arrancar canto estentório,
Mas não ouço nada além de bulício.

Som que lhe sói,
Que me dói,
E faz do desassossego
Nosso vício.

Esse burburinho inaudível,
Que ninguém alcança,
E ao precipício não ultrapassa,
Nunca avança,
Me desespera pelo seu alto custo.

Só quero o direito ao acaso,
Do encontro,
Do bom susto.

Do diálogo concreto das presenças,
Olho que vê olho,
Busto contra busto.

Mas essa tem sido uma crua crença,
Luta apática, sem recompensa.

Esforço que desfolega o pulmão
Por trás do torso.

Me contorço em fé surda
Em honra da sacerdotisa afônica,
Calada crônica.

Me consome o remorço de tentar produzir tumulto,
Bulha,
Chegar ao limite do insulto.

Me punge ser tão canalha,
Patife,
Pulha,
Pária.

E apelar para te ver parir a falha
Da fala, que te desnorteia,
Ou no meu mal francês, "desbussola",

Apenas para no meu ouvido não se olvidar
Uma palavra sua
Que me consola.

Meu egoísmo me ilha,
Humilha,
Isola.

Tua desejada palavra
Tudo ceifa,
Nada colhe,
Tudo encolhe
Nada lavra,
A nada alude.

Então, martelo o último ferrolho,
Cerro o que não escolho,
Assim é raro que algo mude,
Me iludo
E fecho a tampa
Do meu ataúde.

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